Do virtual para a realidade, desafio forma empresários

Campeões estaduais de 2005 no Rio de Janeiro aproveitam os conhecimentos adquiridos no jogo para abrir suas próprias empresas


Apesar das barreiras que um jovem empreendedor encontra em início de carreira, alguns estudantes experimentam anualmente a oportunidade de participar do mundo dos negócios. E o que é melhor: sem prejuízos. A experiência é possível graças ao Desafio Sebrae, o maior jogo de negócios no mundo, cuja edição de 2005 rendeu bons frutos: a 2 Tech, empresa especializada na criação de softwares, e a Dinosaurs Burger, de fast food. Seus donos? Três dos campeões estaduais do ano passado.

Foi o caso de Vinícius Carneiro, 22 anos. Com escassos estímulos ao empreendedorismo ao longo de sua formação, o estudante de Engenharia Eletrônica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) superou o jogo para cair nas malhas dos desafios que a vida empresarial impõe. Ao alcançar o pódio na etapa estadual do Desafio Sebrae, Vinícius, junto com seu colega Renan Maldonado, 25 anos, da equipe Si/SA, inspirou-se nas questões apresentadas na competição para criar um sistema de gestão de contratos de empréstimo.

“O programa facilita a vida do gestor auxiliando o cliente na tomada de decisões”, afirma Renan, estudante de Engenharia de Sistemas, também da Uerj. “A gente tem o mercado mapeado. Em uma semana, vendo 10 softwares. Só não consigo dar suporte”, lamenta o sócio da 2 Tech que, na contramão da habitual corrida em busca pelo emprego, criou seu próprio negócio.

Outro integrante da Si/SA - equipe vencedora do Desafio Sebrae 2005 no Rio de Janeiro -, Felipe Esteves abriu uma empresa na área de gastronomia. A idéia surgiu passados alguns meses do acidente que o deixou tetraplégico – 'Feijão', como é conhecido entre os amigos, estudava Educação Física e lesionou a coluna vertebral quando treinava jiu-jitsu. “O pessoal ia muito lá em casa me visitar e a gente sempre comia hambúrguer, feito segundo uma receita que meu amigo conhecia. A partir daí, resolvemos planejar um negócio voltado para o ramo de fast food”, recorda Felipe, da Dinosaurs.

A experiência necessária à abertura das duas empresas pode ser atribuída às várias participações dos três nas edições anteriores do Desafio Sebrae. Em 2005, Vinícius participava pela terceira vez e Felipe pela segunda. Já Renan, campeão estadual de 2004, tentava o segundo título pelo Rio de Janeiro, embora, inicialmente, não ligasse tanto para o jogo. “Eu, cheio de coisas para fazer, não queria participar. Depois, viciei”, confessa o atual bicampeão do Desafio Sebrae, vencedor das etapas fluminenses nos dois últimos anos.

Risco planejado

Com toda a motivação e experiência absorvidas no Desafio Sebrae, eles se sentem seguros para as tomadas de decisões. “O jogo prega ‘correr riscos’ calculados e ‘planejar-se’. Hoje eu corro risco. Saí do meu emprego, um banco de investimentos, para investir no meu negócio. O salário era legal, mas o que eu quero é realizar, fazer a diferença. E o País precisa disso”, reflete Renan Maldonado, hoje, dono do seu negócio.

Felipe aguarda o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com o objetivo de ingressar no curso de Administração da PUC-RJ. Em paralelo, mudou o foco de atuação da sua empresa, que agora busca um ponto fixo, diferentemente de antes, quando atuava em eventos. “A gente parou de fazer eventos para ficar em um ponto fixo. Estamos tentando a liberação de um quiosque no Humaitá”, revela Feijão, ansioso para iniciar esta nova etapa da Dinosaurs Burger.

Empreender-se para depois empreender

Enquanto para Renan o interesse nasceu a partir do jogo, Felipe já procurava "se empreender". Quando atleta, conquistou seis títulos brasileiros de jiu-jitsu e o segundo lugar no mundial, categoria super-pesado (até 97kg). Com o acidente, viu o fim dos seus planos de vida e teve de reformulá-los. Buscou o auxílio do Sebrae estadual para abrir um negócio e foi orientado a participar da disputa.

“Disputei em 2004 e depois voltei no ano seguinte, com uma equipe formada por pessoas que conheci na competição anterior. Em 2005, fui campeão estadual com estes caras, que viraram meus amigos”, destaca. “E foi o que eu aprendi. Em primeiro lugar, a gerenciar a minha vida, e depois um negócio”, conclui Felipe Esteves, o 'Feijão'.

Rumo à semifinal do Desafio Sebrae 200

O Estado do Rio foi o quinto em número de inscrições, em que 859 equipes e um total de 3.613 participantes tiveram a oportunidade de administrar uma empresa virtual do setor moveleiro. A equipe vencedora nacional - cujo resultado será divulgado em 11 de dezembro, em Brasília - vai passar dez dias na Itália, conhecendo pólos industriais. Mas antes os universitários terão de passar pela semifinal, que será disputada em Belo Horizonte (MG), dos dias 22 a 26 de novembro.

Julieta Zuleta, integrante da equipe campeã estadual de 2006, a Z-Prod, reconhece o peso do jogo virtual. “O Desafio estimula e serve para colocarmos em prática o empreendedorismo através do trabalho em equipe”, conta Juliana, que estuda Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pedro Carneiro, Otávio Augusto, Davi de Souza e Reinaldo Bedim, também aspirantes a economistas, completam o grupo.

A equipe Teras, da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (Feso), também vai representar o Rio de Janeiro na semifinal. O grupo ficou em segundo lugar na repescagem nacional, competição paralela que garante aos dois primeiros colocados uma segunda chance no Desafio. São Paulo, de onde saiu o vencedor da repescagem, levará outras duas equipes: a campeã e a vice-campeã estadual. A vaga extra é um prêmio pelas inscrições obtidas pelo Estado (9,9 mil participantes).

As equipes seguirão para Minas com um bom preparo, de olho na final em Brasília, já que receberam como prêmio cinco cursos da Matriz Educacional e o Empretec. E o bicampeão Renan espera acompanhá-los à distância, como torcedor e olheiro. “A gente já esteve na final, em 2004, quando ficamos em 4º na etapa nacional”, relembra, para depois motivar os semifinalistas: “O jogo me abriu todas as portas do mercado de trabalho. Se eu fosse uma empresa, estaria de olho em toda essa galera aqui”, deixa escapar Renan, esquecendo-se de que já é empresário. (Diogo Ferraz e Thiago Rosas/AgênciaSebrae)



DATA:21/11/2006

Fonte: http://www.empreendedor.com.br/?pid=28&cid=2976&pagina=3